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🧩Análise Macro - Urânio

Atualizado: 6 de fev. de 2025


Fonte da imagem: Getty Images
Fonte da imagem: Getty Images

Resumo:

  1. Em 2011, o acidente de Fukushima iniciou uma campanha global contra a energia nuclear, mas ela é uma alternativa indispensável que não afeta negativamente o clima.

  2. Desde o desastre, a cotação do urânio caiu mais de 75%, afetando o lucro das mineradoras, que começaram a paralisar suas operações no ano de 2019. Outras minas fecharam em 2020 por conta da pandemia.

  3. No entanto a demanda não foi reduzida, pelo contrário - muitas novas usinas estão programadas para entrar em operação nos próximos anos. Muitos contratos de fornecimento vencem este ano e novas encomendas precisarão ser feitas em um ambiente de escassez.

  4. O urânio subiu bastante deste a primeira versão deste estudo, mas ainda tem potencial de retorno aos níveis de 2011, multiplicando a cotação de seus principais ETF em cerca de 4x. Minha primeira compra deve render 9x o valor investido até 2025, aproximadamente. A última fase de alta, de 2003 a 2008, teve um rendimento parecido, com algumas empresas mineradoras superando o desempenho de ações badaladas como Amazon e Apple.

  5. Iniciei minha exposição em urânio através do ETF URA, que possui ações de todas as principais mineradoras. Posteriormente adicionei URNM, CCJ, CEU, LEU e DNN, totalizando 2% do meu patrimônio. Os trades estão detalhados adiante, mas os alvos de saída, se atingidos juntos, levam o bloco para perto de 10% do meu patrimônio (ganho médio de 5x).

Por Alexandre Palazzo.

Estudo publicado em 20/08/2020 no grupo de convidados do Monge, atualizado para o site em 04/01/2022


Fukushima e a pandemia


Em 2011 o mundo assistiu em choque ao tsunami que avançou sobre a usina nuclear de Fukushima, destruindo 4 reatores e causando explosões e vazamento de material contaminado. Até hoje água radioativa é liberada da usina ao Oceano Pacífico. Foi o pior desastre envolvendo energia nuclear desde Chernobyl, em 1986, e é a maior tragédia ambiental da história do Japão. Como conseqüência, a maioria dos reatores nucleares do país foi fechada e uma reavaliação da energia nuclear teve início no mundo inteiro. A mudança fez com que o metal se acumulasse, derrubando o preço em até 75% em relação aos picos alcançados em 2011. Ele havia começado a estabilizar quando a pandemia chegou.

Diante dos preços baixos e com a chegada da CoViD-19, a produção foi cortada em 35% pelas duas maiores empresas do setor - Kazatomprom e Cameco - na tentativa de diminuir o excesso global do produto. As duas maiores minas do mundo - Cigar Lake e McArtur River - fecharam suas portas. Em 2019, o consumo de urânio atingiu 86 mil toneladas, enquanto a produção ficou em 63,3 mil toneladas (apenas 79% da demanda). A queda nos estoques levou a uma recuperação do preço da commodity, em parte porque as mineradoras possuem contratos de venda e precisaram buscar no mercado o urânio que não sairia mais das montanhas. A alta recente, no entanto, apenas começa a descontar o imenso tombo que o metal levou por 8 anos, e desconsidera a inflação de 2011 pra cá, quando o dólar perdeu parte do seu poder de compra.

Apesar dos ajustes na ponta produtora, as empresas consumidoras ainda não mostraram reação. Com a maioria dos contratos de fornecimento vencendo em 2022, elas se tornaram complacentes e estão adiando as renovações, preferindo usar o mercado spot (à vista) e traders para suprir suas necessidades de curto prazo, imaginando que o preço pode voltar a cair. Mas o preço do urânio ainda não dá nenhum incentivo a mineradoras para desenvolver novos projetos ou mesmo religar as máquinas paradas. Quando o preço passar a ser atrativo para as mineradoras (acima de US$ 60/lb), elas precisarão de até 10 anos adicionais para extrair o mineral de qualquer novo empreendimento. A retomada de produção será lenta e não há qualquer condição para superar a extração realizada em 2016, pico do último ciclo, ou 1980, pico histórico atingido no ciclo anterior. Logo, a tendência do preço do mineral é de alta, por fundamentos.

Demanda em alta

Fonte da imagem: World Nuclear Association
Fonte da imagem: World Nuclear Association

O gráfico acima mostra que, se a produção de praticamente todos os países caiu (áreas coloridas), a demanda (linha preta) está rompendo a máxima histórica, atingida entre 2000 e 2005. Em breve vamos ultrapassar as 70 mil toneladas por ano, abrindo um déficit de 20 mil toneladas no fornecimento. Hoje existem 55 reatores em construção no mundo inteiro, que devem precisar de 10 mil toneladas de urânio adicionais por ano pelos próximos 60 a 80 anos, sendo que no primeiro ano de operação o consumo é 3 vezes maior, ou seja, de 30 mil toneladas. Num cenário que segue a tendência atual, podemos ver um gigantesco gap entre demanda e oferta de quase 2/1! Adicionalmente, 109 reatores estão aprovados e outros 329 propostos para entrar em operação a nas próximas décadas.

Embora o consumo de energia, incluindo a nuclear, tenha sido prejudicada pela pandemia, a expectativa é que muitas usinas atômicas sigam operando. Isso ocorre em parte porque é mais fácil ligar e desligar usinas movidas a carvão e gás do que que as instalações nucleares. Vale a pena mantê-las funcionando mesmo que a demanda por eletricidade diminua um pouco. Finalmente, a pressão ambiental pela crise do clima pode até ter saído das manchetes, mas seguirá na pauta política global, pressionando pelo desligamento definitivo das plantas que usam combustível fóssil para gerar eletricidade.

Política: Europa, Russia, China e EUA

Se o governo Trump nos EUA foi marcado pela crise comercial com a China e o enfraquecimento dos laços com a Europa, Biden está se tornando uma liderança diametralmente oposta à Rússia, que apoiou o seu rival nas eleições. Recentes conversas entre Putin e Biden levaram ao rompimento do diálogo depois que o líder ex-KGB agrupou milhares de soldados na fronteira da Ucrânia e ameaçou invadi-la. A Europa Ocidental pisa em ovos com Putin, pois a Rússia fornece o gás natural essencial para aquecer os lares europeus que enfrentam um dos invernos mais severos deste século. A Alemanha encontra-se no maior apuro, após ter decidido em 2011 desligar todos os seus reatores nucleares. É inevitável que o país reveja essa decisão, em especial no caso de conflito na Ucrânia. Países do mundo inteiro estão se dando conta da importância da segurança energética e logística para seu próprio desenvolvimento. Geopolítica sempre foi um fator de risco para os investidores em geral, especialmente em se tratando de uma commodity que, além de poder ser usada para a geração de energia elétrica, tem potencial para aplicação na indústria bélica.

Como a Rússia controla 60% da extração e 43% do enriquecimento do urânio, as empresas elétricas nucleares dos EUA, responsáveis por 1/5 da energia do país, podem també estar encrencadas. A legislação que regula quanto urânio pode ser importado limita a compra de material russo a 20% do consumo de cada usina, forçando a busca por fontes menores, que vão cobrar mais caro por isso. Para complicar um pouco mais o quadro, a Russia tem intensa relação comercial com o Irã, e fornece urânio para o país que sofre sanções dos americanos. O então presidente Trump cancelou o acordo nuclear com os iranianos, retomou as sanções de modo que as empresas como a gigante Kazatomprom precisarão decidir entre fornecer material aos americanos (que podem cortar as importações adiante, sancionando a própria Rússia) ou aos persas (que podem ficar sem dinheiro para pagar). Tudo isso atrapalha as geradoras de eletricidade e favorece a alta do minério. É um interessante cenário para a Cameco e outras mineradoras ocidentais, que terão fatias maiores do mercado consumidor para atender.

Raio-X dos trades

Entendendo meus rabiscos:

É importante explicar como desenho meus trades para que todos possam, a partir dos gráficos, ter uma ideia do que estou fazendo e planejando. Por isso, o leitor pode consultar a seguinte legenda para melhor interpretar os movimentos, tendências, entradas e alvos de saída. Para aqueles que desconhecem análise técnica, diria que não se preocupem com a identificação e nome dos padrões gráficos. Espero que todos consigam acompanhar meu racioncínio mesmo sem o domínio dessa matéria. Mas que tal estudo é altamente recomendável, e que é a alma do que eu faço - identificar e aproveitar os grandes ciclos, no tempo e no preço, de ativos do mercado financeiro.

Legenda:

  • Linha verde: entrada

  • Linha dourada: alvo de saída parcial ou final

  • Linha vermelha: stop loss, quando aplicável

  • Linha turqueza: projeção (o que eu acho que vai acontecer com o preço)

  • Linha branca: suportes contra queda e resistências contra alta

  • Linhas sólidas: ordens já registradas de compra e venda, suportes e resistências válidos

  • Linhas pontilhadas: ordens sendo avaliadas, suportes e resistências rompidos ou ainda não validados (menos de 3 toques do gráfico de preços, ou toques inexatos, distantes da linha)

  • Barras verdes: meses de alta no preço.

  • Barras vermelhas: meses de queda no preço. Outros padrões coloridos: ferramentas técnicas como retração e projeção de Fibonacci


Trade de Cameco - CCJ
Trade de Cameco - CCJ

Denison Mines - DNN
Denison Mines - DNN

Centrus Energy - LEU
Centrus Energy - LEU

Uranium Energy - UEC
Uranium Energy - UEC

NorthShore Global Uranium Mining - URNM
NorthShore Global Uranium Mining - URNM

Global X Uranium - URA
Global X Uranium - URA

Conclusão


A hora de se investir em uma commodity é quando os preços ainda estão baixos e quase ninguém está prestando atenção. Este é o foco do macro-trader, que identifica os grandes ciclos e se posiciona para comprar setores e ativos abandonados pelo mercado. Tal momento já passou, e aqueles que estão lendo este relatório em sua versão pública precisam levar em consideração a perda do ponto de compra ideal. Mas ainda me parece que haja bons ganhos a serem feitos no setor, tanto que continuei realizando compras até poucos dias antes de divulgar esta versão atualizada.

Este talvez seja o período na história mais atraente para o investimento em urânio, com produção em queda, demanda em alta e preços de venda abaixo do custo de produção.

Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar. O autor detém e/ou negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária.

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