🧩Análise Macro - Trigo
- Alexandre Palazzo
- 4 de mar. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 6 de fev. de 2025
Resumo
O consumo de trigo no mundo tem batido recordes históricos ano a ano
A produção vem sofrendo impactos com a crise climática e o escoamento levou um empurrão escada abaixo com a guerra na Ucrânia.
A perda do poder de compra das principais moedas desde 2008 nos faz acreditar que o preço vai romper o topo histórico daquele ano (alta de mais 20% aproximadamente, sobre os valores de Fev/2022).
Em comparação ao preço do grão, o ETF WEAT não subiu no mesmo ritmo e tem muito espaço de alta, podendo quase triplicar de valor até 2026.
Trade: compras de WEAT feitas em US$6.18-6.44, podendo adicionar posições até aprox. US$8.50, venda parcial aos US$12.60, alvo final em US$24.50 previsto para 2026.
Por Alexandre Palazzo para o Monge Investidor
Publicação original deste artigo em janeiro de 2021. Atualizado em 04/03/2022.
Produção
O trigo é uma gramínea do tipo Triticum. É fonte de carboidratos, vitaminas e minerais. São comercializadas três variedades:
Compactum: possui baixo teor de glúten e é produzido em pequenas proporções. Geralmente utilizado na fabricação de biscoitos suaves;
Aestivum Vulgaris: tem uso bem mais amplo, uma vez que é responsável por mais de 4/5 de toda a produção mundial de pães;
Turgidum Durum: é o mais comum para produzir macarrões e massas.[1]

Os ciclos comerciais do trigo são calculados de julho a junho do ano seguinte. Durante o ciclo de 2018/19, foram usados 215.3 milhões de hectares em seu plantio ao redor do mundo, com uma produção de 730.5 milhões de toneladas, representando uma produtividade média de 3.39 toneladas por hectare, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Estas cifras representam reduções de 1.4 e 4.1%, respectivamente, em relação ao ciclo anterior, que havia batido recordes históricos de safra. As reservas do grão em 2019 acumulavam o suficiente para suprir 4 meses e meio do consumo anual mundial, com 275.5Mt, valor abaixo apenas do recorde obtido também em 2017/2018.
A produção do grão é bastante concentrada, sendo 5 regiões responsáveis por 2/3 da safra mundial: União Européia (18.7%), China (18.0%), Índia (13.7%), Rússia (9.8%) e Estados Unidos (7%).[5] Como veremos adiante, será muito difícil superar estes valores nos próximos anos, pois há problemas sérios sendo enfrentados tanto no plantio como na logística da exportação de trigo. Metade dos grandes exportadores sofreu redução significativa em qualidade e quantidade colhida nos últimos anos, em especial a Austrália, cuja produção recente foi a mais baixa desde 2007/08.[4]

Importadores e Exportadores
O trigo é o 85˚ produto mais negociado no mundo, sendo o principal cereal presente no comércio internacional. Cerca de 1/4 da produção mundial é destinada à exportação. Rússia, Estados Unidos e Canadá são os principais exportadores. No ciclo 2018/19, suas exportações representaram 49.8, 49.7 e 77.0% da safra de cada país, respectivamente. Os principais países importadores de trigo são o Egito, a Indonésia e a Turquia.[5] O Brasil é importador de trigo, pois sua produção local supre cerca de metade de nossas necessidades. Em 2019 o país comprou US$1.5 bilhão da commodity, ou 6.6 milhões de tonaladas, sendo 83% desse total vindos da Argentina. EUA, Paraguai, Uruguai e Canadá também nos venderam o produto, mas em proporção muito menor.[7]
Os gráficos a seguir mostram em detalhes o fluxo da mercadoria, a variação nas compras e vendas entre 2018 e 2019 e, por fim, a participação no mercado de cada país exportador, em bilhões de dólares, ao longo do tempo. Interessante observar que o pico das exportações foi atingido em 2014, e nunca mais chegamos perto do valor recorde de aproximadamente US$60bi.[8]




Consumo
O Departamento de Agricultura americano manteve sua expectativa em 2019 de consumo crescente e em nível recorde, pelo aumento do consumo humano, seguindo a tendência de alta da década anterior. O consumo humano de trigo atingiria 602 milhões de toneladas, 4% acima da média dos 5 anos anteriores. O consumo em ração animal também tem aumentado, mas a porcentagem deste tipo de destino ainda é relativamente pequena e estável.[4] Somados e projetados para o ciclo seguinte (2019/2020), o consumo total de trigo atingiria 754.5 milhões de toneladas, novo recorde histórico.[5]
Geograficamente o consumo também é bastante concentrado, tal qual a produção. Os cinco principais consumidores participam com mais da metade do total (56.4%): China (17.0%), União Européia (16.8%), Índia (13.0%), Rússia (5.5%) e Estados Unidos (4.1%). Os países de maior consumo por habitante são a Turquia (209.7kg), o Egito (186.2kg) e o Irã (166.4 kg).[5]

No longo prazo, segundo avaliação feita pela FAO - Food and Agricultural Organization of the United Nations, o crescimento populacional menor e o desenvolvimento de um mercado consumidor mundial com maior poder aquisitivo (que acaba consumindo menos grãos e mais carne) indica desaceleração neste aumento de consumo do trigo que vimos até aqui. O pico de crescimento deve se dar nos próximos dez anos, no máximo. A desaceleração será acentuada quando a população da China começar a declinar, daqui aproximadamente 20 anos.
Se no consumo humano a previsão é de crescimento menor, na parte de ração animal veremos uma força positiva, a tal ponto que o consumo total se mantenha crescendo em ritmo estável. O uso de ração passará a ser o driver principal dos cereais a partir de 2030, como insumo da carne que a população humana consumirá cada vez mais. O gráfico abaixo mostra essa participação cada vez maior da ração (barras alaranjadas), assim como a evolução diferenciada entre países sub-desenvolvidos, industriais e em transição.[3]

Inflação, crise climática e guerra [atualização deste estudo]
O maior preço atingido no contrato futuro de trigo, em fevereiro de 2008, foi de US$1334.50.[2] Se atingirmos condições semelhantes de oferta e demanda, penso que o preço será bem mais alto, pela perda do poder de compra que o dólar sofreu desde aquele ano. A base monetária americana cresceu 3x de lá para cá, e no resto do mundo o cenário não é muito diferente. A tendência é que, encontrando um quadro parecido com 2008, o trigo fique muito mais caro.
Recentemente nos aproximamos deste valor recorde, devido à invasão da Ucrânia pela Rússia, dois dos maiores produtores e exportadores da commodity, respondendo por 30% do comércio internacional de trigo. O transporte do cereal pelo Mar Negro praticamente parou, companhias multi-nacionais como a Bunge e a ADM fecharam fábricas na região, e a maior operadora de navios de conteiner do mundo, a Maersk/MSC, suspendeu os serviços em todos os portos russos. Os portos ucranianos estão fechados para operações comerciais. Um mercado que já estava pressionado por reduções de safra na América do Sul, Canadá e EUA, agora precisa lidar com as agruras da guerra.[2]

O caso australiano é ainda mais grave, em termos de seca e quebra de safra, do que ocorreu nas Américas do Sul e do Norte. São vários anos de pouca chuva, reduzindo em 18% a colheita de 2019/20 perante o ciclo anterior. A seca acertou em cheio duas regiões produtoras de trigo, New South Wales e Queensland. Há uma perspectiva de aumento na produção na região oeste da Australia, cuja colheita ocorre em dezembro. O USDA mesmo assim espera que a próxima colheita ainda seja ruim, 35% abaixo da média de 5 anos e no menor nível desde a safra 2007/08.[4]

Trade realizado: entrada, gestão de risco e saída
Como mostrei a você nos estudos sobres Urânio e Prata (que podem ser vistos clicando nos links), trabalho commodities na minha carteira de crescimento, buscando comprar barato papéis esquecidos pelo mercado, quando começam a aparecer sinais de que a oferta será menor que a demanda por vários anos, podendo trazer a commodity de volta para seu preço recorde. Como não opero diretamente os contratos, busco um ETF que o faça, tendo seu preço o mais correlacionado o possível com o produto in natura. Também posso comprar ações de empresas que exploram o setor e tendem a ganhar com a valorização da commodity.
O escolhido no caso do trigo foi o ETF WEAT. O primeiro gráfico mostra o preço dele desde a criação, em 2011 (linha laranja), e sua forte correlação com o trigo (linha branca). A esticada forte do grão em março muito me anima, pois abre um gap recorde entre o preço do produto e a cota do ETF. Compradores devem chegar, buscando hedge ou trades lucrativos e impulsionando o fundo WEAT para perto da sua referência nos contratos futuros.

Realizei minha primeira compra em Jan/21 a US$6.44 e completei a posição em Abr/21 a US$6.18 (linhas verdes no gráfico abaixo). Seguindo a estratégia da carteira de crescimento, vendo metade da posição do ativo pelo dobro do preço de compra, refazendo meu caixa para novos negócios e zerando o risco do trade atual. O alvo para esta venda parcial está em US$12.60. O alvo final, para vender a segunda metade da posição e zerar o trade, é US$24.50 (linhas laranjas). A área em azul mostra o fundo arredondado, padrão técnico que usei para realizar a minha entrada. Caso haja um recuo significativo, voltarei a comprar, mas os papéis adquiridos perto de US$8.50 já estarão no meu limite de gestão de risco: posso vender 2/3 deles no primeiro alvo, zerando risco ao obter 50% de lucro… Mais caro do que isso, entendo que não vale a pena comprar. Logo, estou nesse momento apenas observando, sentado sobre as mãos, acompanhando o desenvolvimento do trade que foi compartilhado em tempo real com nosso grupo fechado de convidados, mas que abro hoje para o público com a finalidade de mostrar a minha estratégia em ação, com dinheiro em risco, no campo de batalha.

Conclusão
Uma estratégia de carteira de crescimento de Macro Trade busca grandes ganhos em prazos longos com ativos cíclicos, ou com aqueles que se desvalorizaram brutalmente mas estão recuperando as suas forças após melhorias nos fundamentos (turn-around), ou ainda logo após um crash (pânico nos mercados que tornam o bom, barato). É importante monitorar estes ativos e perceber o movimento de virada antes da maior parte dos investidores e traders. Pegar a mudança de tendência no início reduz os riscos (o fundo está mais perto) e aumenta os ganhos (o alvo está mais longe). Foi o que fiz com o trigo e, por enquanto, apesar de não ter ainda atingido meu primeiro objetivo, estou perto de fazer minha venda parcial, e confiante de que o alvo final será atingido em 5 anos ou menos. Se a paz e a chuva vierem (acredite, eu torço por isso!), e o preço voltar a cair, tal fato não me preocupa, pelo contrário - os aportes mensais que faço, economizando parte do meu salário, e o lucro de trades mais antigos poderão ser alocados neste trade uma última vez, em uma situação de risco/retorno razoável, unindo-se às duas compras anteriores à espera da “colheita” prevista para 2026..
Referências usadas neste estudo:
[5]https://www.eleconomista.com.mx/opinion/El-mercado-mundial-y-nacional-del-trigo-20190911-0094.html
Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar. Todo investimento implica em riscos, e ganhos passados não garantem resultados futuros. O autor detém e/ou negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária.




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