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♟Estratégia - Risco e Fragilidade

Atualizado: 22 de jun. de 2022


Resumo:

  1. A associação de risco com renda variável e segurança na renda fixa é falsa. O risco, enquanto possibilidade de perder dinheiro, existe em todos os ativos - até ser zerado.

  2. Zerar o risco deve ser o primeiro objetivo de todos os investimentos. Gerenciar o risco deve ser a prioridade de todas as carteiras de investimento.

  3. Fragilidade é o potencial efeito negativo em um ativo diante de um acontecimento inesperado que derruba os mercados. Um ativo frágil cai mais que os principais índices. Um ativo robusto quase não cai. Um ativo anti-frágil se favorece com o caos e sobe.

  4. O Cisne Negro de Taleb é um evento cuja existência foi ignorada antes da crise, mas que se torna óbvio depois da crise. Governantes e acadêmicos são especialistas em criar e não entender estes eventos.

  5. O ouro é o ativo anti-frágil mais antigo que existe. Alternativas mais modernas podem ser encontradas em derivativos como o ETF VIXY e no mercado de opções. As operações de compra alavancada de ações e índices são as mais frágeis. O dólar tem se mostrado robusto. O Bitcoin ainda não teve tempo suficiente para sabermos.

Por Alexandre Palazzo

Publicação original no grupo de convidados do Monge em 01/12/2019. Atualizado e publicado no site em 05/04/2022.


Reaprendendo o conceito de risco


Certamente você já se deparou com a clássica avaliação de risco dos ativos com aquelas bandeirinhas vermelhas, amarelas e verdes junto a cada fundo de investimento, ou com a informação de que aumentou ou diminuiu o “apetite pelo risco” no mercado, porque houve uma migração entre renda fixa e renda variável. Nada pode estar mais distante da realidade.

Risco é o valor que pode desaparecer de um ativo, afetando o seu patrimônio. Títulos de dívida são renda fixa, mas podem não ser pagos, retirando todo o seu valor de face. Em caso de calote o dono daquela renda fixa perde tudo - eis o risco! Ações podem ter seu risco zerado com vendas parciais após a valorização, através de venda de opções ou ainda com os dividendos pagos pela empresa ao longo do tempo, devolvendo o dinheiro que você usou para comprar o papel. Logo, esqueçamos esta associação falsa entre ações e risco e vejamos como gerenciar e zerar corretamente a chance de perdermos dinheiro no mercado financeiro.

Gerenciamento e zeragem de risco

Quanto do seu dinheiro pode ser perdido sem lhe tirar o sono ou afetar a sua capacidade de decisão? É uma pergunta difícil e talvez você só saiba da resposta pessoal depois de muitos sustos. Para não nos arriscarmos demais, usaremos uma média global neste artigo: 2%.

Se você tem, por exemplo, 10 mil reais de patrimônio e quer começar a investir na bolsa, você pode comprar um ativo usando apenas 200 reais. É pouco, certo? Então provavelmente você vai, por um curto período, ter mais dinheiro em risco do que 2%. Será uma situação indesejada, temporária, de maior ansiedade e perigo. Para lidar com ela, usaremos uma tática certeira mirando zerar o risco de seu primeiro ativo, antes de comprar o segundo. Você pode escolher uma das 3 possibilidades abaixo:

  • Com dividendos: digamos que você usou R$1.000 para comprar um lote de 100 ações, a R$10 cada. Neste momento 10% do seu patrimônio está em risco. Mas você viu que esta ação distribui dividendos regulares de 8% ao ano, em média. Neste caso, você terá o seu valor investido devolvido, aos poucos, durante 12,5 anos. Ao final deste período o risco deste ativo estará zerado. Você não perderá dinheiro nem mesmo se a ação passar a valer zero. Aqui desconsideramos a inflação no período. Logo, você talvez precise de um pouco mais de tempo para recuperar o valor de compra que tinha o seu dinheiro na data da entrada.

  • Com venda parcial: se você não quer ter de esperar mais de 12 anos para poder comprar outro ativo, há formas menos demoradas para se zerar o risco. Se aquela sua ação comprada 10 reais subir para 12 reais, e você vender 90 das 100 ações, receberá de volta os R$1.000,00 investidos e as 10 ações que sobraram na sua carteira já estarão livres de risco. Há de se levar em consideração taxas e impostos envolvidos na operação, que não coloquei aqui para simplificarmos as contas. Com um pouco de sorte, este é um trade que pode levar apenas algumas semanas ou meses.

  • Com opções (nível avançado, não faça isso no início): Aquela ação de R$10 tem um mercado bastante líquido de opções? Então você pode procurar uma venda de “call” para zerar seu risco e continuar turbinando os ganhos do papel depois disso. Digamos que você encontre regularmente uma opção de R$ 1, com “strike" 10% acima do preço atual do papel. Se ele subir, você terá vendido a ação com lucro e ainda ganho uma beirada nas opções. Se não subir, a cada rodada de venda de “call”, seu risco diminui. A R$ 1 por opção, em 10 meses o risco do papel estará zerado. E você pode continuar ganhando estes 10% ao mês enquanto for dono do papel. Criei aqui um exemplo fácil, de números altos e redondos. Na prática você pode levar 2 anos para ganhar de volta os R$1.000,00 que investiu, mas é praticamente certo que, cedo ou tarde, esse dinheiro vem.

O ideal (para quem tem conhecimento e tempo livre) é combinar todas estas táticas, recuperando o seu dinheiro rapidamente e podendo se expor ao risco mais uma vez. Se você já ganhou dinheiro com dividendos e opções, sua venda parcial pode ser menor, e mais ações livres ficarão na carteira. Repetir indefinidamente este circuito vai lhe dar grandes alegrias e pouca dor de cabeça. Conforme seu patrimônio livre de risco aumenta, você poderá aumentar as entradas. Mas faça isso com muita parcimônia.


Fortunas são construídas com paciência e disciplina ao longo de anos, mas podem ser destruídas em um único momento de ganância.

Fragilidade

Tão ou mais importante que o conceito verdadeiro de risco é a fragilidade. Esta se resume ao nível de estrago de um evento negativo inesperado. Serve para a sua vida, para sua carreira, para seus investimentos. Por exemplo: a fragilidade do trabalho de um jogador de futebol de 30 anos costuma estar nos seus joelhos. A fragilidade de um investidor pode estar no excesso de confiança de que seu plano dará certo. E em uma carteira toda direcionada para isso.

O oposto de fragilidade não é a robustez. Esta está mais para ausência de estrago no evento negativo. Por exemplo, fundos de renda fixa não tem a bolsa como fragilidade. Se as ações despencarem em um crash, o poder de compra do dinheiro aplicado em RF se mantém basicamente o mesmo. Este fundo é, portanto, relativamente robusto.

Uso o termo “relativamente" pela questão cambial. Se você tiver R$1.000 em RF e a bolsa cair a 50% dos seu valor, você ainda terá seus R$1.000 lá, bem quietinhos. Mas se antes eles valiam US$400, talvez agora valham apenas US$200, porque o o real terá pedido terreno para o dólar. Para quem viveu sempre no Brasil e nunca pensou no resto do mundo isso pode parecer insignificante. Mas em um mundo globalizado, é importante considerar questões cambiais. Muita coisa que você compra no Brasil tem insumos importados ou vem mesmo de fora do país, e vai ficar mais cara numa crise. Nesse caso, uma conta corrente em dólares ou um fundo cambial seriam, de fato, robustos. O dólar se movimenta calmamente em relação às outras moedas fortes do mundo, não importando o humor dos mercados.

O oposto de frágil, então, é o ativo que se favorece com o caos. No exemplo do jogador de futebol, se ele for dono do passe do seu reserva imediato, um talentoso garoto de 18 anos, o jogador mais velho pode ganhar dinheiro caso saia do time por um joelho estourado. O passe de seu concorrente se valoriza com a chance de ir a campo em seu lugar, e a venda do reserva para um time europeu pode lhe render muito mais do que os salários que receberia caso seu joelho ficasse inteiro. O joelho do veterano pode ser frágil. Suas finanças, não.

Na gestão do seu dinheiro, uma carteira defensiva (anti-frágil) não é feita apenas de ações e fundos, mas também do seu trabalho. No caso do jogador de 30 anos, ele investiu parte do que ganhou em campo pensando no que poderia dar errado com a sua carreira. E achou um ativo que, com toda a certeza, venceria no momento da sua derrota.

Vejamos o meu exemplo pessoal, para solidificarmos esse conceito: sou piloto de um grande avião cargueiro. Participo da logística internacional, de um mercado que se apóia em acordos comerciais, liberdade de deslocamento, crescimento econômico e estabilidade política. Eventos inesperados que podem bagunçar esse cenário são muitos. Guerras, terrorismo, pandemias, crises entre países ou dentro de determinado país, recessão econômica... Quase tudo isso já aconteceu nos meus 27 anos de aviação. Meu trabalho é bastante frágil!

Para minha sorte, os ativos que sobem de valor nesses momentos em que meu salário se encontra em risco são muito conhecidos. Desde que o mundo é mundo o ouro, a prata e (para quem vive em país emergente) o dólar sobem quando a coisa azeda, regional ou globalmente. E como posso ainda operar vendido na bolsa, uso estes 4 apoios para combater a fragilidade na minha carreira. Se minha reserva de emergência for suficiente para me aposentar em caso de catástrofe no trabalho, eu passo a ter um quadro de anti-fragilidade nas minhas finanças. É quase um “quanto pior, melhor”.

Cisnes negros

Resumindo um livro inteiro do Nassin Taleb em poucas linhas, os cisnes na Europa eram considerados modelos de beleza e pureza. Imaculadamente brancos, todos eles. Nunca os habitantes do velho mundo imaginaram que outro tipo ou cor de cisne pudesse existir. Até que os britânicos desembarcaram na Austrália pela primeira vez e se depararam com cisnes absolutamente negros. Foi um choque - o Universo guardava algo inesperado, imprevisível, mas que, uma vez conhecido, tornava-se óbvio. Havia mais de um tipo de cisne.

Nas bolsas de todo o globo, o ataque terrorista do 11 de Setembro foi um cisne negro. Ninguém até então falava sobre os impactos financeiros de um ato chocante e simbólico como aquele. O mundo, então, pôs inúmeras trancas na porta arrombada. Para os agentes da CIA, porém, aquele evento era óbvio e estava previsto antes de acontecer. O problema foi a falta de ação do governo, que ignorou os relatórios de inteligência. Da mesma forma, os australianos nativos sabiam o tempo todo que cisnes não eram necessariamente brancos, e a surpresa coube apenas aos navegadores vindos do Velho Mundo.

Podemos imaginar uma série de eventos altamente impactantes, mas é importante lembrar que, de onde olhamos, o cisne negro é invisível até apresentar-se. Não podemos dizer “o que” ou “quando” algo assim vai acontecer pois, se soubermos, já não é mais surpresa. Ainda assim, podemos observar na história como o mundo reagiu aos cisnes negros, e como tirar proveito destes momentos únicos, mas de impacto repetitivo, no mercado financeiro.

Pearl Harbor em 1942 derrubou as bolsas, provocou imensa procura por títulos de dívida dos EUA e jogou o ouro para cima. As torres gêmeas em 2001 e a quebra do Lehmann Brothers em 2008 fizeram a mesma coisa. No Brasil, o sequestro das cadernetas de poupança do Collor, em 1992, e o Joesley Day em 2017 fizeram parecido, em escala regional. Recentemente na Argentina a votação primária de um candidato socialista para substituir o então presidente Macri fez o mesmo. Vemos um padrão nítido, e podemos entender que, ainda que o próximo evento não possa ser previsto, sempre é a hora certa de adequar a carteira a essa possibilidade.

Ativos que se beneficiam com o caos

Falo bastante do ouro porque ele esteve presente em todos os cisnes negros desde o colapso da moeda grega em 500aC. Ele é o grande exemplo, provado pelo tempo, pelas inúmeras repetições, por ser o ativo mais seguro e um dos mais procurados quando mercados entram em pânico ou depressão. Mas outros ativos estão nessa lista. Eles são chamados de “safe havens” pelo mercado.

Já comentamos os principais: metais preciosos, certas opções e operações “short" ou vendidas contra ações ou índices de ações, moedas fortes contra moedas emergentes, e títulos de dívida pública americana, considerados os mais seguros do mundo (que sobem de valor quando os juros caem e a procura aumenta).

Em um relatório, o banco JP Morgan comenta que a queda dos juros para patamares negativos no primeiro mundo alterou um pouco esta lista. Manter os títulos (bonds) americanos na carteira passou a tirar dinheiro dos investidores enquanto nada de ruim acontece. Mas eles seguem sendo importantes na hora do pânico. O juro negativo passou a ser uma “taxa de custódia”. Eles sugerem, então, imóveis e dívida privada de alta qualidade como alternativas. O artigo completo para quem quiser saber mais está neste link.

Talvez você tenha ouvido falar que o Bitcoin estaria entre os novatos da lista. O “ouro digital”, por ser escasso, não correlacionado com bolsas e impossível de ser confiscado naturalmente soa como uma boa alternativa. Mas desde o começo da crise causada pelo novo coronavírus, o BTC vem se comportando de forma bem semelhante à bolsa americana, mostrando que os investidores usam a criptomoeda para especular, mais do que para se proteger. E posições mais agressivas costumam ser abandonadas em momentos de aversão ao risco. Se a natureza da moeda digital faz dela um plano de sobrevivência num colapso total do sistema financeiro, crises menores não comprovam o seu uso como ativo de defesa para qualquer coisa que não seja o fim do mundo como conhecemos.

Um último comentário sobre o dólar: para os americanos e europeus, podemos dizer que o dólar é apenas robusto. Posições em dinheiro são defesas conhecidas dos investidores destas regiões. No caso do Brasil, do ponto de vista de quem investe basicamente em reais, podemos dizer que o dólar é anti-frágil, já que a moeda brasileira perde valor frente e a ele - e ao Euro, o Yen e o Franco suiço... Tenha investimentos em moedas estrangeiras para usar o câmbio a seu favor nestas horas!

Conclusão


Uma carteira anti-frágil é sinônimo de liberdade, sossego e maturidade ao investir. Essa carteira defensiva é a verdadeira reserva de emergência. Você deve estudar a si próprio, a sua carreira, conversar com a sua família, e determinar quais ativos devem compor esta reserva, qual deve ser seu tamanho hoje e como ela deve evoluir ao longo dos anos. Reflita bastante e construa bem a fortaleza que vai defender você de uma crise, podendo deixa-lo até mais forte do que antes dela chegar.


Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar. O autor detém e/ou negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária.


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